Gases de efeito estufa batem recorde histórico e ampliam alerta sobre aquecimento global, diz ONU
Relatório da Organização Meteorológica Mundial aponta níveis inéditos de CO₂, metano e óxido nitroso em 2025; acúmulo de poluentes pode intensificar eventos climáticos extremos por décadas ou séculos.
As concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera atingiram níveis recordes em 2025, segundo um relatório divulgado nesta terça-feira (27) pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU). O levantamento aponta que o dióxido de carbono (CO₂), o metano e o óxido nitroso chegaram a marcas históricas, ampliando a preocupação com o avanço do aquecimento global.
De acordo com o 22º Boletim de Gases de Efeito Estufa da OMM, o acúmulo desses gases está retendo uma quantidade sem precedentes de calor na atmosfera. O cenário aumenta os riscos associados às mudanças climáticas e pode contribuir para a intensificação de fenômenos meteorológicos extremos, como ondas de calor, secas e inundações.
O alerta também destaca que os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados. Como parte dos gases permanece na atmosfera durante longos períodos, os efeitos do acúmulo atual podem continuar influenciando o clima mundial por décadas e até séculos.
CO₂ atinge concentração recorde na atmosfera
O dióxido de carbono, principal responsável pelo aquecimento global entre os gases de efeito estufa de longa duração, chegou à concentração média global de 426,8 partes por milhão (ppm) em 2025.
O número representa aproximadamente 53% acima do nível registrado antes da Revolução Industrial, por volta de 1750. Na prática, significa que, para cada milhão de moléculas de ar, cerca de 427 eram de dióxido de carbono.
Entre 2024 e 2025, a concentração média global de CO₂ aumentou 2,8 ppm. Embora a elevação tenha sido inferior ao recorde de 3,6 ppm registrado no período anterior, o volume acumulado continuou crescendo.
Segundo a OMM, o ritmo de aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera se acelerou significativamente desde a década de 1960. Naquele período, o crescimento médio anual era de aproximadamente 0,8 ppm. Na última década, a média ficou em torno de 2,6 ppm por ano.
A principal causa do aumento de longo prazo é a queima de combustíveis fósseis, como carvão, petróleo e gás natural, além de outras atividades humanas que liberam carbono na atmosfera.
Metano e óxido nitroso também batem recordes
O relatório da ONU aponta que os outros dois principais gases de efeito estufa de longa duração também alcançaram concentrações inéditas em 2025.
O metano chegou a 1.948 partes por bilhão (ppb), equivalente a 267% do nível pré-industrial. Embora permaneça menos tempo na atmosfera do que o dióxido de carbono, o gás tem um elevado potencial de aquecimento.
Entre as principais fontes humanas de metano estão a criação de animais, o cultivo de arroz, a exploração de combustíveis fósseis, os aterros sanitários e a queima de biomassa.
Já o óxido nitroso atingiu 339,1 ppb, o equivalente a 126% da concentração registrada antes da industrialização. O gás é liberado por processos naturais e atividades humanas, com destaque para o uso de fertilizantes na agricultura e determinados processos industriais.
A elevação das concentrações dos três gases reforça a preocupação dos cientistas com o desequilíbrio entre a quantidade de poluentes lançada na atmosfera e a capacidade dos sistemas naturais de absorver parte dessas substâncias.
Florestas e oceanos enfrentam pressão do aquecimento global
Os ecossistemas terrestres e os oceanos desempenham um papel fundamental no controle da concentração de dióxido de carbono na atmosfera.
Estima-se que aproximadamente metade do CO₂ emitido a cada ano permaneça no ar, enquanto o restante é absorvido pelos ambientes naturais. Essa capacidade, porém, varia de acordo com as condições climáticas.
Períodos de calor intenso, secas e incêndios florestais podem reduzir a absorção de carbono pela vegetação. Nos oceanos, as mudanças nas condições ambientais também podem afetar a capacidade de absorver o gás.
Segundo especialistas da OMM, o crescimento mais moderado da concentração de CO₂ entre 2024 e 2025 está relacionado, em parte, à recuperação dos sumidouros terrestres de carbono e à redução das emissões provocadas por incêndios em comparação com o período anterior, marcado pelos efeitos do El Niño.
Apesar dessa desaceleração, o resultado não significa que o problema esteja controlado. A concentração global continuou aumentando, e o carbono acumulado anteriormente permanece na atmosfera.
El Niño pode contribuir para novas altas em 2026
A Organização Meteorológica Mundial alerta que as concentrações de gases de efeito estufa podem continuar aumentando em 2026, impulsionadas pela queima de combustíveis fósseis e por possíveis efeitos de um novo El Niño intenso.
O fenômeno climático natural provoca o aquecimento anormal das águas do Pacífico equatorial e pode alterar os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta.
Durante episódios intensos, algumas áreas ficam mais suscetíveis a secas e incêndios, o que pode prejudicar a capacidade dos ecossistemas de retirar carbono da atmosfera.
A combinação entre emissões humanas persistentes e mudanças na capacidade de absorção dos ambientes naturais representa um desafio adicional para os esforços internacionais de combate às mudanças climáticas.
O que o recorde de gases de efeito estufa significa para o planeta?
O aumento das concentrações de gases de efeito estufa contribui para a retenção de calor na atmosfera e para a elevação da temperatura média global. Entre as consequências associadas ao aquecimento estão o aumento da frequência e da intensidade de determinados eventos extremos, além de impactos sobre a agricultura, os recursos hídricos, os ecossistemas e a saúde humana.
A OMM ressalta que os dados do relatório medem a concentração dos gases acumulados na atmosfera, e não apenas as emissões produzidas durante 2025. Por isso, mesmo que as emissões diminuam em determinado período, a concentração atmosférica pode continuar aumentando enquanto a quantidade liberada superar o volume retirado pelos sistemas naturais.
A redução consistente das emissões, especialmente de combustíveis fósseis, é considerada essencial para limitar o aquecimento futuro. O controle do metano também é apontado como uma medida importante, pois sua permanência na atmosfera é menor do que a do CO₂ e a redução das emissões pode trazer benefícios climáticos em prazos mais curtos.
Os novos recordes divulgados pela ONU reforçam a urgência de medidas para reduzir a poluição climática e limitar os impactos das mudanças do clima nas próximas décadas.