Nos últimos anos, Gabi Melim passou por momentos transformadores. Após anos de sucesso à frente da banda Melim, a cantora, de 31 anos, precisou lidar com desafios que mudaram profundamente sua forma de enxergar a vida, a carreira e a si mesma. Atualmente no comando da própria carreira solo, ela lança Escapismo, audiovisual que nasce justamente da necessidade de desacelerar, se reconectar e encontrar novos sentidos.
“Eu acho que a gente está vivendo essa era do escapismo. Depois da pandemia, as pessoas sofreram tanto que as coisas ficaram meio inconcebíveis. Misturo um pouco da minha maneira de analisar o mundo e, ao mesmo tempo, uma autoanálise de tudo o que vivi”, reflete a artista em papo exclusivo com a Quem.
Gabi lembra que o sucesso da banda trouxe uma rotina intensa, marcada por viagens, compromissos e uma carga de trabalho difícil de sustentar por muito tempo. “A gente fazia uma média de 25 shows por mês. Era realmente muito exaustivo. Além disso, tinha televisão, publicidade, entrevistas. O mês inteiro era tomado de compromissos”, recorda, contando que as consequências vieram em forma de problemas de saúde física e emocional: “Em 2020, eu quase perdi a vibração da corda vocal direita. Tive depressão, tive distúrbio alimentar. Você não consegue comer direito, a adrenalina sai do palco, você não dorme, tudo desregula.”
Quando a Melim encerrou suas atividades, em 2023, a cantora acreditava que finalmente teria um período de descanso. Mas a vida tinha outros planos. “Eu não tive um tempo de respiro. Já lancei o projeto ‘Gabriela’, que eu vinha construindo há algum tempo. Eu precisava de uma pausa e meio que aconteceu de eu ficar doente”, lembra.
Foi então que ela enfrentou duas paralisias faciais. “Tive paralisia de Bell duas vezes. No meu caso não foi viral. Foi realmente estresse, ansiedade e excesso de trabalho”, conta, explicando que a experiência serviu como um alerta definitivo. “Acho que o capitalismo faz isso com a gente. Existe essa ideia de que precisamos ser produtivos a qualquer custo. Mas a gente acaba escapando da gente mesmo. Acaba se desconectando”, avalia.
Por isso, ela faz questão de destacar que o novo álbum não é um julgamento sobre as formas de fuga que as pessoas encontram para lidar com a realidade. “É um álbum de acolhimento. É importante ter fugas, mas não a ponto de fugir de si mesmo”, explica.
Segundo Gabi, a diferença entre seu primeiro trabalho solo e o novo projeto está justamente no momento de vida em que cada um foi criado. “Sinto que o álbum Gabriela era sobre me apresentar ao mundo. O Escapismo é muito mais sobre voltar para mim”, compara, entregando que a faixa Roda Gigante, que abre o trabalho, nasceu diretamente da experiência da paralisia facial.
“Quando eu canto que ‘o medo mora no futuro e faz paralisar’, estou falando disso. Dessa ansiedade de viver sempre no amanhã”, justifica. A canção também sintetiza a forma como ela passou a enxergar as dificuldades. “A vida é roda-gigante e não para. A gente vai aprendendo com as adversidades”, opina.
O álbum apresenta uma mistura de ritmos brasileiros que vai do samba ao baião, passando por ciranda, pagodão baiano e outras referências populares. Uma escolha que, segundo Gabi, tem tudo a ver com sua trajetória. “Eu comecei cantando samba de raiz aos 15 anos. A música popular brasileira me moldou. Sempre foi o que eu gostei de ouvir e o que me formou como artista”, conta.
Mais do que experimentar sonoridades, ela queria se permitir aproveitar o processo criativo. “Uma coisa que prezo hoje é curtir o processo. Durante muito tempo eu estava tão exausta que não conseguia aproveitar as etapas”, reconhece.
Entre os convidados do projeto estão nomes como Ana Gabriela, Mestrinho, Maria Gadú e Luísa Sonza. Mais do que escolhas estratégicas, as participações refletem relações afetivas construídas ao longo dos anos. “São pessoas que fazem parte da minha vida. A Ana foi muito importante no início da Melim. A Luísa participa da faixa que dá nome ao álbum. Tudo tem uma conexão muito verdadeira”, conta.
Gabi admite que, após passar por tantas transformações pessoais e profissionais nos últimos anos, acabou amadurecendo emocionalmente. “Eu faço terapia e acho que essa maturidade vem muito da busca pelo autoconhecimento. Não acho que ninguém se conheça 100%, mas só o fato de se observar já muda muita coisa”, avalia.
Hoje, ela diz se sentir mais segura e menos dependente da aprovação dos outros. “Não estou mais tão insegura a ponto de querer aceitação a qualquer custo. Acho que, quando a gente se aceita, se liberta do peso de precisar que o outro nos aceite”, afirma.
Sobre o fim da Melim, Gabi trata o assunto com carinho e gratidão, mas reconhece que a pausa foi necessária para todos os envolvidos. “A gente viveu um casamento. Era muito trabalho, muito convívio. Chegou uma hora em que cada um queria experimentar coisas diferentes artisticamente”, conta ela, garantindo que tem orgulho do legado construído ao lado dos irmãos, Rodrigo e Diogo: “A Melim construiu uma coisa linda. Eu tenho muito orgulho da nossa história e do que criamos juntos.”
Agora, o foco está em construir novos caminhos sem abrir mão da leveza que aprendeu a valorizar. “Hoje me sinto muito livre. Livre como mulher, livre artisticamente e emocionalmente também“, diz a cantora, que, embora ainda tenha muitos sonhos pela frente, mudou sua prioridade. “Quero realizar meus sonhos, mas quero curtir as etapas. Durante muito tempo, só trabalhei. Agora eu quero viver o processo também. Acho que o meu maior sonho é ter paz de espírito. Estar feliz com o meu trabalho, com as minhas realizações e continuar levando minha música para as pessoas.”