‘Me senti usadíssima’, lembra Regina Casé sobre um determinado filme que rodou nos anos 1970, época das pornochanchadas brasileiras. Estrela de outro clássico do gênero, “Os sete gatinhos”, dirigido por Neville D’Almeida, e do qual guarda boas lembranças, a atriz revela, em entrevista ao videocast ‘Conversa vai, conversa vem‘, no ar no Youtube e no Spotify, desconforto com cenas de nudez protagonizadas na década de 1970, quando ninguém imaginava que existiria a profissão de ‘coordenador de intimidade’. Leia trecho:
Você fez um clássico da pornochancada, “Os sete gatinhos” (de Neville D’Almeida) gênero que objetificou a mulher, mas que também trazia certa liberdade sexual feminina. Como enxerga a evolução da representação da mulher no audiovisual?
Está em movimento. Sofri com aquilo. “Os sete gatinhos” foi um momento legal, livre. Todo mundo diz “ah, anos 1970, aquela época em que todo mundo ficava pelado em filme… Regina, você parecia uma índia”. Mas outras vezes, me senti usada. Tem um filme em que me senti usadíssima. Iam fazendo, rodando, as coisas iam acontecendo e ninguém avisava. Era uma época que não se pensava nisso, nem tinha coordenador de intimidade. Foi difícil.
Qual era o filme?
Melhor não dizer. Mas acho que ainda está confusa a relação de saúde e estética. Primeiro, um padrão muito magro; depois: “você pode ter o peso que quiser”. Não sinto que chegamos num lugar confortável e sereno para as mulheres. As que estão se expondo fora do padrão, por mais que digam “me aceito, sou assim mesmo”… isso ainda gera sofrimento para elas.
Você foi testemunha e agente da mudança da representação da mulher no humor, que por anos foi “feia” ou a “gostosa”. Como o humor desenha sobre o papel da mulher na sociedade?
É vitrine do que está acontecendo. A base era o circo: aí, a mulher barbada ou com nanismo. Era sempre a graça feita em cima do sofrimento de alguém, o que vai dar nesses cuidados, que acham exagerados, do politicamente correto. Eu não acho. Para fazer essa transição, tem que passar por esse lugar. Esse cuidado e essa percepção de “olha o que todo mundo está fazendo”…. Porque, depois, vai no bullying, nos suicídios nas escolas. É a mesma coisa no humor. Vai entrar só uma boazuda no filme, no programa de humor. Ou uma mulher considerada horrorosa, que vai ser zoada o tempo todo. Isso se expande para várias outras coisas, para música e tal. Então, acho que teve que ter um rigor mesmo.
Nair Belo, Dercy Gonçalves… Há atrizes maravilhosas que, por não se enquadrarem no papel de mocinha, só encontraram lugar no humor...
Todo mundo que não encontra lugar em outro lugar vai parar no humor. Vê Chico Anysio, Tom Cavalcante, Renato Aragão. Só o fato de ser nordestino parecia uma piada, aquele sotaque. Aquilo é identificado, primeiro, com uma pessoa que é pobre; depois, caricata. Como se não pudesse ser nordestino e fazer o papel que quisesse. A gente começou a quebrar essa barreira com “A máquina” (espetáculo com Wagner Moura, Lázaro Ramos e Vladimir Brichta nos anos 2000). Começou a coisa do sotaque e do cara poder ser galã. Wagner Moura, que deu no que deu. Mas ele também ficaram um tempo ali no humor.
Já se incomodou em ser colocada em estereótipo ou se sentiu cobrada por não corresponder ao padrão estético que a sociedade nos impõe?
Nunca pude ser a mocinha da novela, mas já pude ser a mãezona da novela quando eu fiquei mais velha. Tina Pepper (personagem de Regina na novela ‘Cambalacho’) era engraçada, caricata, mas era gostosa. E pegava o galã. O que era meio parecido comigo. Eu era engraçada, inteligente, a que não era bonitinha. Mas eu era a gostosa e passava o rodo. São não namorei o Michael Jordan, que gostaria de ter namorado. Fiquei numa dúvida interna se eu queria ser o Michael Jordan ou dar para o Michael Jordan (risos). Era louca por ele. Ia ver o jogo, saía gritando e os seguranças me tiravam. Sabe aqueles filmes de Beatles?
Por que não podia ser a mocinha?
Porque não estava nesse padrão. Eu tinha cara de nordestina. Quais programas fiz quando entrei? Renato Aragão e Chico Anysio… Depois, ‘TV Pirata’, onde fazia papel de homem o tempo todo. Conforme fui amadurecendo, pude fazer uma mãe bonita. Porque a idade já não exige tanto que tenha aquele padrão de cara, de corpo. Ao mesmo tempo, como muitas atrizes estavam muito botocadas e preenchidas, não poderiam fazer uma cortadora de cana ou a Dona Lurdes. Não ia combinar. E isso foi bom porque veio muito papel para mim.