O interesse da Mercedes de adquirir parte de ações da Alpine não caiu bem na McLaren. De acordo com veículos da imprensa internacional como “Motorsport” e “The Race”, Zak Brown, CEO da escuderia inglesa, enviou uma carta a Mohammed ben Sulayem, presidente da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), em que cobra o fim das copropriedades na Fórmula 1.
O “The Race” obteve acesso ao texto de seis páginas enviado por Brown. Nele, o gestor da McLaren argumenta que a Fórmula 1 vive boa saúde financeira e que, portanto, não há necessidade de uma empresa ser dona de mais de uma equipe na categoria. Na visão de Zak, a copropriedade seria “injusta” com as equipes independentes.
Atualmente, há um modelo de copropriedade em vigor na Fórmula 1: a Red Bull controla não só a equipe de mesmo nome, mas também a Racing Bulls, em um modelo instituído há duas décadas. No passado, a Honda chegou a ter relação parecida com a extinta Super Aguri.
Brown já havia expressado a posição contrária às copropriedades anteriormente. No entanto, o CEO da McLaren decidiu formalizar a opinião após o surgimento das notícias envolvendo Mercedes e Alpine.
Brown não teria citado a Mercedes e a Alpine nominalmente na carta, mas sim expressado a opinião de forma geral em relação à Fórmula 1. A preocupação de Brown é com a popularização do modelo a médio e longo prazo.
– Existe uma preocupação real de que o esporte corra o risco de dar um passo para trás em termos de integridade e justiça, num momento em que o quadro regulamentar foi concebido com um esforço coletivo significativo para caminhar na direção oposta – diz Brown, em um trecho da carta publicado pela imprensa internacional.
Brown também teria citado alguns exemplos das últimas temporadas da Fórmula 1 que, segundo ele, ferem a integridade esportiva da categoria e foram causados por alianças entre equipes.
Um deles é a polêmica volta rápida de Daniel Ricciardo no GP de Singapura de 2024. O piloto estava na Racing Bulls naquela temporada, e a briga pelo título estava entre Max Verstappen (Red Bull) e Lando Norris (McLaren). No fim da prova, o australiano foi aos boxes e colocou pneus macios para dar a volta mais rápida da corrida, o que garantia um ponto adicional à época.
Ricciardo tirou o ponto extra de Lando Norris na última volta e atrapalhou o britânico na disputa pelo título. Diante da polêmica e das reclamações, a FIA decidiu remover o ponto adicional das regras a partir de 2025.
A carta enviada por Brown também questiona o compartilhamento de itens importantes entre as equipes, como softwares e túneis de vento, além de indagar sobre diferenças nos períodos sabáticos que profissionais precisam cumprir ao irem de uma equipe para outra, com intuito de evitar que as informações confidenciais sobre os carros da temporada vigente sejam compartilhadas.
Em um dos exemplos, o gestor da McLaren citou a ida de Laurent Mekies para o cargo de chefe de equipe da Red Bull. O francês exercia o mesmo cargo na Racing Bulls, mas passou ao novo time em pouco tempo após a demissão de Christian Horner.
Brown perguntou o porquê de a McLaren ter precisado esperar nove meses e pagar compensação à Red Bull para contratar Rob Marshall, atual diretor técnico do time de Woking.
No fim da carta, Zak também disse estar aberto a conversar com Mohammed ben Sulayem e disse que a equipe vai começar a trabalhar em recomendações de governança a respeito desta questão.
Pouco antes do início da temporada de 2026 da Fórmula 1, o jornal inglês “The Telegraph” revelou que a Mercedes está interessada em adquirir 24% das ações da Alpine, pertencentes à empresa Otro Capital.
Em 2023, a Otro Capital pagou 233 milhões de dólares (R$ 1,16 bilhão, na atual cotação) para adquirir as ações da Alpine. De acordo com a publicação, os acionistas agora avaliam que a fatia de 24% do time francês está estimada em 594 milhões de dólares, cerca de R$ 2,97 bilhões.
O grupo de investimentos tem a participação de famosos como Ryan Reynolds e Rob McElhenny; ambos também controlam o Wrexham, clube do País de Gales que disputa a segunda divisão do futebol da Inglaterra.
Mercedes e Alpine estreitaram relações nos últimos tempos, já que a equipe francesa fechou a fábrica de Viry-Châtillon e deixou de produzir motores próprios, passando a utilizar as unidades de potência da equipe alemã a partir desta temporada.
Durante entrevista coletiva dos chefes de equipe antes do GP da China, o italiano Flavio Briatore, que ocupa o cargo na Alpine, confirmou o interesse da Mercedes nas ações da Alpine. Segundo ele, essa negociação não tem relação direta com Toto Wolff, chefe da equipe alemã.
– Todo dia é uma situação nova. O que posso dizer é que conheço a negociação da Mercedes – não é com Toto, mas com a Mercedes – e vamos ver o que acontece – disse Briatore.
De acordo com o italiano, a Alpine possui “três ou quatro” compradores em potencial para as ações da Otro Capital. Briatore disse poder garantir que uma possível relação entre Mercedes e Alpine não terá conflito de interesse; para isso, citou a relação entre Red Bull e Racing Bulls.
– Eu acho que sim (pode garantir). A Red Bull tem sido uma pioneira nos últimos 10 ou 15 anos. E como eu disse, a Mercedes está querendo comprar os 24% da Otro. Normalmente, em uma empresa, 75% decidem e 25% são passageiros. A realidade é essa – defendeu.