Mesmo se definindo como um artista mais “careta”, Tuca Andrada está longe de se colocar em uma “caixinha”. Além de sua versatilidade artística, o ator, de 61 anos, também chama atenção por não ter medo de se posicionar. A inspiração para se expressar de forma mais livre veio de Torquato Neto (1944–1972), que inspirou o monólogo Let’s Play That ou Vamos Brincar Daquilo. A peça, que mescla poesia, show e debate, está em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo.
Tuca se deparou com a história de Torquato em 2004, ao entrar em uma livraria e encontrar um livro sobre o poeta e jornalista — que deixou sua marca no Tropicalismo ao lado de nomes como Gilberto Gil e Caetano Veloso. “Não sabia muito do Torquato e esse foi um dos motivos para eu trazer ele para cena. Só não sabia como fazer exatamente, porque contar sua trajetória com flashbacks é muito careta pro artista que ele era. Fiquei pensando: como eu conto a história desse homem sem ser quadradinho? Decidi ir através da poesia dele, das músicas dele e do que ele escrevia”, diz o ator em entrevista à Quem.
A peça não possui patrocínio, mas isso não impediu Tuca de montá-la com dinheiro próprio. “Já sei que eu não vou recuperar, estou fazendo porque é uma coisa que eu queria fazer, é o meu trabalho e resolvi me dar esse presente”, comenta. No espetáculo, o ator quebra a quarta parede e responde muitas perguntas do público sobre a vida do poeta, que Tuca estuda há mais de 20 anos e o inspirou ser mais direto nas palavras. “Depois da ditadura que teve nesse país, as pessoas ficaram com muito medo de falar as coisas. As pessoas se retraíram muito. O Torquato me fez ter essa audácia para eu falar algumas coisas que eu queria sem nenhum compromisso com nada”, afirma.
A decisão de se posicionar mais fez Tuca ganhar um rótulo de “polêmico”, algo que o afetou no meio artístico. “Pessoas amigas minhas, que eu considerava muito, se afastaram depois que eu comecei isso. E, assim, não comecei por nada”, enfatiza o ator, que negou que almeja um cargo político. “Não quero ser deputado e nem vereador. Não quero nenhum cargo, nem administrativo. Não quero tomar conta de Secretaria de Educação em lugar nenhum, nem de Cultura. Não quero. Eu sou um ator. Eu só sou um ator e mais nada. Vejo pessoas dizendo: ‘Ai, está tentando um carguinho, vai se eleger’. Não tenho talento para isso. Eu simplesmente falo o que eu estou pensando. Isso não quer dizer que é verdade ou que é mentira, é a minha opinião.”
No ano passado, Tuca saiu em defesa de Paolla Oliveira após a atriz ser alvo de comentários maldosos por conta de seu corpo. Na ocasião, ele afirmou no Instagram: “Até eu que sou viado sei que a Paolla é uma gostosa”. O comentário repercutiu como se o ator estivesse se assumindo gay. “Nunca escondi isso de ninguém. Eu também nunca fui falar, porque não me interessa vender minha vida privada, o que me interessa é vender meu trabalho”, afirma. “As pessoas disseram ‘olha, se revelou’, não revelei nada, cara. Eu só não ia para o Faustão falar: ‘Olha, eu sou gay. Olha, esse aqui é meu namorado’. Não, não vou fazer isso.”
Além da peça que está em cartaz em São Paulo, Tuca também por ser visto em outras duas grandes produções do streaming, a série Emergência Radioativa, da Netflix, e a novela Dona Beja, da HBO Max. No remake estrelado por Grazi Massafera, o ator vive um coronel moralista em meio a sociedade, mas que se entrega aos prazeres na cama de Beja. A trama, inclusive, conta com muitas cenas de nudez e algumas delas é protagonizada por Tuca. “É uma coreografia. Você nunca está totalmente nu ali e não tem nem espaço para você sentir tesão, porque é tanta gente ao redor de você, tanta luz e tantas pessoas falando”, explica.
Defensor da arte, Tuca também destaca que vê uma mudança na sua profissão e sente que atualmente muitas pessoas querem seguir carreira artística apenas para fazer publicidades. “Ser ator é uma coisa que é muito dolorida. Ser ator não é uma coisa fácil. Fico espantado, por que tanta gente quer ser ator? Porque quando você está num processo de criação, você se enfrenta, você enfrenta seus medos, você enfrenta sua covardia e sua vilania. Você está sempre se pondo em jogo e isso não é tão fácil, isso dói”, afirma.