Sophie Charlotte surge em nosso encontro por videochamada um pouco atrasada.
Assim como sua atual personagem, Gerluce, de Três Graças, a atriz tem feito malabarismo para dar conta da agenda caótica, que começa antes das sete da manhã, em meio aos estudos do roteiro e gravações das cenas da sua primeira protagonista de uma novela das nove, e vai até a noite.
Sem contar os cuidados com o filho, Otto, de 9 anos, com quem ela divide a criação com o ex-marido, o ator Daniel de Oliveira, também no ar — na novela das sete, Coração Acelerado.
“Quando a gente faz uma novela, a rotina é como a de uma maratona. A gente precisa ter resistência e perseverança”, conta a estrela de 36 anos.
Mas, ao contrário da ficção, Sophie não tem do que reclamar neste sentido.
Seus olhos brilham ao falar do papel de uma mãe solo, criada pela mãe, Ligia (Dira Paes), que tem a possibilidade de abordar temas tão necessários do universo feminino, como a mulher como mantenedora do lar — realidade da maioria das famílias brasileiras –, relacionamentos abusivos e os desafios de criar uma filha sem deixar de lado seus desejos e individualidade como mulher.
“A gente lê todos os dias tantas notícias que nos devastam e nos chocam”, diz Sophie antes de uma pausa para controlar o choro.
“Estamos no mês do Dia da Mulher, 8 de Março, que é uma data que seria de celebração, mas que ocorre enquanto estamos mergulhados em um choque profundo. Essas personagens são um caminho para a gente se lembrar da nossa força e mostrar essas histórias de uma forma não tão didática e panfletária para talvez sensibilizar pessoas que não conseguem ser tocadas quando a gente fala de uma forma mais direta e política”, diz em meio às notícias de estupro coletivo de uma estudante e vários casos de feminicídio.
“Fico muito feliz por poder também mostrar essa personagem se apaixonando e encontrando um amor que cuida, que está disponível, que trata ela bem… Aí você fala: ‘Não é possível! Será que existe isso?’. Não importa! A gente precisa ver e validar relações assim. A gente precisa mostrar: ‘Homens, é assim! Então, olha, vamos amar direito!’. É bonito poder ter tantas facetas com uma mesma personagem”, analisa Sophie – em relação ao tratamento que Gerluce recebe de Paulinho (Romulo Estrela).
“Os parceiros que eu tive na minha vida são pessoas muito legais”, enfatiza ela, solteira desde o fim do relacionamento com o seu colega de elenco Xamã.
Nosso papo foi no dia seguinte a uma das cenas mais aguardadas pela artista, a que Gerluce descobre que a filha, Joélly (Alana Cabral), e o genro, Raul (Paulo Mendes), venderam sua neta bebê em um momento de desespero financeiro.
Graças à terapia em dia, com sessão feita antes da entrevista, ela conta que conseguiu assistir à cena – algo que tem dificuldade em fazer nos seus trabalhos por conta do perfeccionismo – e se contentar com o resultado, que tem lhe rendido muitos elogios.
“Assisti e fiquei muito feliz! E isso é uma coisa rara. Eu costumo ser muito crítica, mas gostei. Estou muito feliz com a equipe e a novela, que está começando a se encaminhar para uma reta final superacelerada e cheia de reviravoltas. Tem muita coisa para acontecer”, empolga-se.
Nascida em Hamburgo, na Alemanha, do amor entre o paraense José Mário da Silva e da alemã Renate Elisabeth Charlotte Wolf, Sophie teve o seu lado artístico estimulado por meio da dança desde antes de se mudar para Brasil, por volta dos oito anos de idade.
Com mais de duas décadas de carreira como atriz, iniciada em Malhação e com uma variedade de personagens com distintas personalidades, ela deixa outro talento se sobressair: o da música.
Após o fim da novela, a estrela quer lançar seu primeiro EP como cantora. O projeto será ao lado de Tom Veloso, filho de Caetano Veloso, que era muito amigo da sua grande inspiração, Gal Costa, a qual interpretou no cinema em Meu Nome é Gal (2023).
Ah! E por falar em cinema, ela está aberta a novas aventuras internacionais!