Os cabelos já não são os mesmos. Mas o amor por si mesma (“Isso tem que acontecer independentemente de como eu esteja”, diz) segue intacto, maduro e sem concessões ao tempo. Trinta anos após o auge de um dos maiores fenômenos da música brasileira dos anos 1990, a modelo e atriz Nereide Nogueira — que interpretou a icônica “pitchula” no clipe da música “Pelados em Santos”, dos Mamonas Assassinas — relembra, ao GLOBO, momentos marcantes daquela época e abre o coração, pela primeira vez, sobre uma “paixão mútua” cultivada com um dos músicos, em romance interrompido pelo acidente aéreo que matou todos os integrantes da banda, em 1996.
Longe dos holofotes, a paulista, hoje com 53 anos, trabalha como “modelo de peles maduras” — emprestando sua cútis para campanhas publicitárias de cosméticos voltadas ao público 50+ —, além de também realizar eventos como produtora. Há quatro anos, ela decidiu parar de tingir os cabelos e assumir os fios grisalhos. A escolha não foi fácil, mas representou uma “libertação”, como celebra a paulista, que vive em Atibaia (SP), no interior do estado, e tem um filho de 16 anos.
— No começo foi meio complicado, porque é aquela coisa… A raiz dos fios foi crescendo, e o cabelo ficou feio, né? Decidi, então, ir cortando o cabelo… Tinha virado escrava da tinta de cabelo. E o cabelo acaba ficando detonado com a tintura — conta ela. — Estou me achando bonita assim, sabe? O mais importante é a gente se amar do jeito que a gente é.
Entre lembranças divertidas do clipe de “Pelados em Santos”, uma produção que levou nada menos do que 14 horas de gravação, Nereide compartilha, pela primeira vez, um episódio pessoal que ficou guardado por décadas: um flerte por telefone, ao longo de um ano, com o baixista Samuel Reoli, integrante dos Mamonas Assassinas.
Após inúmeras tentativas, os dois combinaram de se encontrar presencialmente em 1996 — o que seria, enfim, o primeiro “date” deles. No dia anterior à data marcada, porém, o avião em que estavam os músicos se chocou contra a Serra da Cantareira, em São Paulo.
Segundo Nereide, o entrosamento instantâneo com Samuel nos bastidores da gravação do clipe alimentou uma conexão especial, ainda que nunca tenha se transformado num romance concreto — muito por causa da intensa rotina de shows e deslocamentos da banda. Os dois se telefonavam regularmente, de duas a três vezes por semana, para jogar conversa fora, com direito a apelidos carinhosos entre eles.
A tragédia interrompeu o que poderia ter sido não apenas uma carreira (ainda mais) promissora, mas também um possível relacionamento.
— Perdi um amigo, perdi uma paixão. Com o Samuel, a ligação era muito forte. Às vezes ele me ligava só para dizer: “Oi, mamônica. Oi, minha musa da hora”. Ou então apenas falava: “Tô com saudade. Liguei só para ouvir sua voz” — recorda-se Nereide, ao discorrer, pela primeira vez, sobre a comovente história de amor. — Foi difícil de cair a ficha, sabe? Fiquei muito triste mesmo.
Ela não nega que, por algum tempo, fez e refez na mente os caminhos que a vida poderia ter tomado caso o acidente não tivesse acontecido. Um namoro sério teria surgido? Casariam-se, os dois? Como seria a relação, então? As questões rondaram, e muito, a cabeça da modelo.
— Apesar do jeito maluco dele, Samuel era muito carinhoso. Não sei se o relacionamento iria para frente. Mas a gente iria ficar junto, sim. Pelo telefone, eu percebia que ele estava apaixonado por mim. E eu também estava me apaixonando, sabe? — diz. — Rolava um romance ali, né? Nunca dei um beijo nele. Nada. Mas a gente tinha esse flerte. Era uma paixão platônica. E, pelo andar de nossas conversas, se realmente tivesse rolado o churrasco, a gente ia ficar junto. Mas infelizmente (ela se interrompe)… É um amor que hoje guardo com muito carinho.
Nereide Nogueira só conhecia uma música dos Mamonas Assassinas no momento em que foi convidada para participar do clipe “Pelados em Santos” (“A canção ‘O vira-vira’ tocava muito na Rádio Rock, em São Paulo”, ela lembra). À época, em 1995, a paulista morava no Rio de Janeiro, pois estava matriculada num curso voltado para atores iniciantes na TV Globo. Numa noite qualquer, num happy hour na casa de uma amiga — que atuava como produtora —, a atriz e modelo pegou a agenda telefônica da bolsa, um caderninho de papel onde também guardava, entre as folhas, algumas fotos.
Foi, então, que uma dessas imagens se soltou da brochura e caiu no chão. Tratava-se do registro de um trabalho que ela havia feito, anos antes, num evento voltado para empresas. Na foto, lá estava Nereide caracterizada de Jessica Rabbit, a personagem sedutora do filme “Uma cilada para Roger Rabbit” (1988), ao lado de Rubinho Barrichello. A amiga se surpreendeu com o clique e disse que estava em busca, que tal?, de uma modelo para gravar um clipe caracterizada justamente de… Jessica Rabbit. Deu no que deu, e o resto é história.
— Acredito muito em destino. Era para esse trabalho ter acontecido mesmo, né? Se eu não tivesse encontrado essa minha amiga, se a foto não tivesse caído no chão… Imagina! Foi muita coincidência mesmo. Coisa do destino — comenta Nereide, que trabalhou, na década de 1990, como assistente de palco de Gugu Liberato, no SBT, e apresentou o programa “SuperTécnico”, na Band, ao lado do jornalista Milton Neves, além de também ter comandado a atração “Papa-tudo”, na TV Globo.