“Deixaram a gente chegar, e olha o que estamos levando!”. Cristian Ribera levou das Paralimpíadas de Inverno uma medalha inédita para o Brasil: a prata do sprint do esqui cross-country na categoria sitting, para pessoas que competem sentadas. Apenas um mês após o ouro inédito de Lucas Pinheiro Braathen nas Olimpíadas de Inverno, o esquiador rondoniense colocou o Brasil no seleto grupo de países com medalhas nos quatro grandes eventos poliesportivos: os Jogos Olímpicos e os Paralímpicos de Verão e de Inverno. Milão-Cortina foi uma importante etapa de uma meta ousada: transformar o Brasil em uma potência nos esportes de neve.
– Nosso objetivo principal é de fato ser uma potência. Nosso planejamento estratégico era conquistar uma medalha em 2026, seja no olímpico ou no paralímpico. A meta é que nos próximos Jogos o Brasil chegue não apenas com dois atletas brigando, mas quatro ou mais. E assim sucessivamente. Nosso trabalho é muito mais em médio e longo prazo, para pensar na continuidade do esporte – disse Gustavo Haidar, superintendente técnico e COO da CBDN (Confederação Brasileira de Desportos na Neve).
O Brasil agora tem 640 medalhas somando os quatro Jogos, sendo que 469 desses pódios foram paralímpicos. O país está no top-10 das Paralimpíadas de Verão desde Pequim-2008. Nos Jogos de Inverno de Milão-Cortina, os brasileiros quebraram recordes. Além da medalha inédita de Cristian Ribera, o país teve a maior delegação (oito atletas), a maior participação feminina (três mulheres), o melhor resultado feminino (quinto lugar de Aline Rocha) e o melhor resultado de equipe (sétimo lugar no revezamento misto do esqui cross-country). Um primeiro passo para chegar ao patamar de potência como nas Paralimpíadas de Verão.
– Hoje a gente detém bastante conhecimento, e já somos vistos como uma equipe de elite. A gente é muito mais referência do que já foi no passado. Planejamos toda a temporada, as principais competições, os ciclos de treinamento, e acaba selecionando os atletas para nos representar nas principais competições, como Copas do Mundo e Mundial – explicou Gustavo.
O Brasil foca os investimentos no esqui cross-country. Segundo a CBDN, é a modalidade mais viável para desenvolver no país entre os quatro esportes paralímpicos de neve, além de ser a base do biatlo, modalidade que mistura esqui e tiro esportivo. O rollerski, adaptação para o asfalto, é uma ferramenta importante de desenvolvimento. Campings internacionais e parcerias com potências da neve, como a Noruega, também estão no projeto.
– O trabalho começou lá em 2015 no planejamento estratégico da CBDN. A gente construiu uma matriz de viabilidade e desenvolvimento. A partir disso, vimos que o material técnico é algo de muita importância. A equipe multidisciplinar, como em toda modalidade, mas principalmente na seleção de esquis, é muito importante. Hoje a gente não perde em nada para os principais países da neve do mundo. A gente seleciona os esquis na fábrica, antes que vá para qualquer loja. Esse é um grande diferencial. Tem um conhecimento importantíssimo sobre as ceras que vão no esqui. É quase uma Fórmula 1 dos esportes de inverno. Hoje a gente até tem uma vantagem competitiva em relação a outras equipes – disse Gustavo.
A CBDN tem núcleos de treinamentos em São Carlos, Ribeirão Preto, Campinas e Jundiaí, cidades do estado de São Paulo. De olhos nas próximas edições das Paralimpíadas de Inverno, a entidade busca novos atletas principalmente em outras modalidades, seguindo o exemplo de Cristian Ribera e Aline Rocha, que competem no atletismo – a paranaense, inclusive, disputou as Paralimpíadas de Verão na Rio 2016 e em Paris 2024.
Assim, as escolinhas do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) podem ser uma porta de entrada para os esportes de inverno. Foi esse o caminho traçado por Elena Sena, que competiu no esqui cross-country e no biatlo em Milão-Cortina. A CBDN e o CPB atuam em parceria na formação dos atletas.
Nos esportes paralímpicos de gelo, por outro lado, o caminho é mais longo para o Brasil. Há um projeto da Confederação Brasileira de Desportes no Gelo (CBDG) para desenvolver o curling em cadeira de rodas, mas não o hóquei em cadeira de rodas.